ヨーロッパへの窓

★★★★★★

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生きもの、カラス、五人の子ども

Os Animais, os Corvos e os Cinco Meninos

ゴンサロ・M・タヴァレス

Gonçalo M. Tavares

Gonçalo M. Tavares
Gonçalo M. Tavares was born in Angola in 1970 and teaches Theory of Science in Lisbon.  His work has been published in more than 50 countries. In 2005 he won the José Saramago Prize for young writers under 35. Jerusalém was also awarded the Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2007 and the LER/Millenium Prize. He has received the prestigious Prize of the Best Foreign Book 2010 in France, the renowned Grande Prêmio da Associação Portuguesa de Escritores, as well as the prestigious Prémio Literário Fernando Namora 2011. “Jerusalém” and “Senhor Walser e a Floresta” are translated into Japanese.

Os Animais, os Corvos e os Cinco Meninos

Gonçalo M. Tavares

Olga está contente porque tudo o que é necessário está já ligado entre si e ela pode não saber bem as regras do positivo e do negativo, mas já percebeu que há elementos e materiais que têm de estar ligados para que a electricidade passe de um ponto para outro.
Alexandre faz de maestro, mas está preocupado porque não sabe a música toda. É Olga, como sempre a mais esperta, a que gosta de se antecipar, de liderar, é a pequenita Olga, que já sabe até escrever sem muitos erros, é ela quem faz a ligação e quem primeiro fica desiludida porque algo corre mal, porque a rã não se mexe e continua morta na mesa. Claro que nos livros as coisas parecem mais fáceis. Não era isso que eles queriam, e não foi a última vez que Alexandre repreendeu a irmã, apesar de ela ser muito esperta.

Claro que a Boneca é diferente, mas, de qualquer maneira, a grande vantagem é que quando, por distracção ou divertimento, ela fica sem um braço, com o tempo, não se começa a decompor nem a cheirar mal e é por isso que a pequenina gosta tanto daquela Boneca e não gosta, por exemplo, de alguns animais que têm patas pequenas e quase sempre lhe dão vontade de as arrancar até que a cabeça deles morra de fome por, lá em baixo, não se conseguir mexer.

Uma vez, contou Alexandre, fizeram uma experiência em que cegaram um corvo e depois colocaram-no dentro de um enorme armazém às escuras, sem qualquer ponto de luz, e o corvo cego orientou-se perfeitamente.
Os corvos não se orientam com os olhos, orientam-se com os ouvidos, disse Alexandre a Olga, sempre tão esperta e não sabia disso, pensa Alexandre. Os corvos emitem uns guinchos que não se escutam, que estão abaixo da nossa capacidade de audição, e esses guinchos é que os fazem ver, disse Alexandre.
Mas provavelmente não era assim – e os meninos confundiam os corvos com morcegos. Mas são meninos, que importa isso?
Alexandre explicou, então, com toda a certeza que os meninos têm, que os guinchos, inexistentes para os ouvidos dos irmãos, batiam nas coisas e as coisas emitiam um eco, uma resposta sonora que também não conseguimos ouvir, e era através dessa resposta, sonora, desse eco que os corvos viam, ou seja: ouviam as coisas e percebiam onde elas estavam, qual era o seu peso, a sua posição, se eram coisas vivas ou coisas mortas; tudo isso os corvos percebiam apenas através dos ouvidos. Eles não vêem de noite, eles ouvem, é completamente diferente, disse Alexandre a Olga, sempre tão esperta, e não sabia aquilo.

E uma vez, homens maus, muito maus, cegaram três corvos e puseram-nos num armazém muito escuro. E fecharam lá os meninos, e os meninos já sabiam da história e tinham medo do que os corvos poderiam ouvir; por isso diziam schiu uns aos outros, mandavam-se calar uns aos outros, tentavam suspender a respiração, tentavam não se mexer, tentavam não mover nem sequer um pé para o lado, como se estivessem a brincar ao esconde-esconde, mas os corvos, que não sentiam a falta dos olhos para no escuro perceber onde estavam as coisas, os corvos, mesmo assim, estavam zangados, furiosos, porque eles estavam agora sem olhos, estavam cegos, e mesmo em plena noite, num armazém sem qualquer foco de luz, num momento e num sítio em que não precisavam dos olhos para nada, mesmo aí os corvos não gostaram que os cegassem, que fizessem experiências com eles, e por isso eles estavam cheios de raiva, raiva mesmo, e os dentes estavam afiados (mesmo que não tivessem dentes) e eles atiravam-se contra as coisas porque procuravam os meninos, atiravam-se contra as coisas porque as coisas estavam à frente dos meninos, e os meninos estavam bem escondidos atrás das coisas, mas mesmo assim os corvos não paravam e agora já eram muitos corvos, um bando de corvos que era impossível de contar e todos eles estavam com raiva dos meninos e queriam mordê-los, uns porque estavam cegos, outros porque tinham fome.

Mas os meninos esconderam-se bem. Estava para lá um velho tractor que não funcionava havia muito, que não andava um metro nem para a frente nem para trás, mas era esse velho tractor, que já não funcionava, que escondia trás de si Alexandre e a pequenina Tatiana e ainda Olga que, sempre tão esperta, percebera que aquele tractor tinha tamanho suficiente, e formas adequadas para esconder três crianças dos corvos, três crianças sim, mas não quatro, quatro já não cabiam, mas isso não percebeu Maria e por isso ela estava com parte do corpo fora da protecção do tractor velho que já não andava e essa parte do corpo estava ali, desprotegida, e os corvos já tinham percebido, mas a cabeça de Maria está bem protegida e também os pulmões, o coração, o cérebro, os pés, as pernas, quase tudo no corpo de Maria estava protegido atrás do tractor. Mas onde está Anastácia? Onde está ela? Deixaram de a ver. Anastácia faz sempre isto, pensa Alexandre irritado, perde-se sempre quando estamos em perigo, desaparece quando temos medo, perde-se de nós quando estamos quase a morrer. Alexandre irrita-se com esse pensamento e grita, perdendo a cabeça. Grita pela irmã, pela pequena Anastácia. Mas a irmã não está ali, nem sequer está no armazém. Há muito que se perdeu dos irmãos e por isso não corre perigo. Quem corre perigo são eles, os outros quatro irmãos. Ainda mais porque Alexandre se mexeu, e todos os corvos atacaram naquela direcção, e estão raivosos, e, como bestas, investem contra o tractor velho e, estúpidos, partem os próprios ossos mas voltam a atirar-se, uns segundos depois, de novo contra a chapa metálica do tractor velho. E é assim que se matam, como se fosse um suicídio colectivo, os corvos matam-se atirando a cabeça com força contra o tractor velho. E só Maria é mordida no rabo, mas uma mordidela de corvo não é assim tão grave e os irmãos vão tratar dela, logo depois de o último corvo se matar – eles estão loucos porque os cegaram, estão completamente raivosos, e os últimos aí estão, a investir estupidamente contra o metal enferrujado, os corvos estão cegos mas emitem os seus guinchos e ouvem muito bem, mas são estúpidos e morrem, o bando inteiro, um a um, ou vários ao mesmo tempo, e só conseguem uma vitória, uma tão pequena vitória, pois com aqueles dentes tão perigosos só morderam o rabo de Maria, que não tinha espaço para esconder o corpo todo, e o rabo de Maria sangra, vai ficar com uma marca, quando for grande e se despir a marca ainda vai estar lá - mas que importância tem uma marca nas nádegas se os meninos continuam vivos, e Olga, que é sempre tão esperta, faz perguntas sem parar a Maria para que ela não pense naquilo, na mordedura má, muito má.

Mas o dia já começou e a luz entra finalmente no armazém. Alexandre olha, mas é a pequena Tatiana que, com a Boneca na mão, dá o primeiro grito. No chão do armazém, não estão sete ou oito corvos mortos, estão dezenas e dezenas de cadáveres de corvos, amontoados uns por cima dos outros, quase todos ali, em redor do tractor velho, uma montanha preta de animais estúpidos que emitem guinchos que as pessoas não conseguem ouvir e que, com esses guinchos, se orientam no escuro, animais tão bem apetrechados na audição, mas estúpidos demais para conseguirem contornar com habilidade um tractor velho e atacar quatro crianças, e não cinco (onde está Anastácia?).
Alexandre, depois do susto, sobe para o tractor. É Olga quem tira um corvo morto de cima do assento e o atira enojada para o monte lá em baixo. Alexandre quer pôr em funcionamento o tractor velho. A chave está na ignição. Maria tem no rabo uma ferida, mas a mordedura de corvo não é venenosa. Chora, mas às vezes esquece-se. Tatiana atira primeiro a Boneca lá para cima, para o tractor, e só depois sobe, ajudada por Olga, sempre tão esperta, que lhe ensina onde ela deve pôr os pés para fazer aquela pequena escalada.
Os quatro meninos estão em cima do tractor e é o mais velho, Alexandre, quem tenta uma e outra vez pôr o tractor em funcionamento. Mas o tractor é velho ou não tem gasolina e não se mexe. Foi capaz de matar os corvos maus mas não se mexe, e por isso Maria chama nomes ao tractor e Olga também e Tatiana, que repete sempre o que vê, também insultam o tractor velho, só Alexandre não chama nomes à máquina e não sabe porquê, não entende aquilo.
Quem tem culpa?, pergunta-se Alexandre: os corvos, eles mesmos, os cinco irmãos, os humanos mais velhos ou o tractor que já não anda e que foi o responsável final pela morte dos corvos?
Alexandre quer culpados, mas é um menino ainda e, por isso, cansa-se em poucos minutos de procurar o culpado e, sentado no meio do chão, vai contando os corvos mortos como se aprendesse a maldade e a matemática ao mesmo tempo. Como se essas duas ciências – a maldade e a contabilidade – fossem afinal uma única; e crescer fosse isso: aprender essa única ciência.